Por que uma das maiores festas populares do mundo é vista por muitos cristãos como a “festa da carne”?
O Carnaval é, sem dúvida, uma das expressões culturais mais marcantes do Ocidente, especialmente no Brasil, onde se tornou símbolo de identidade nacional. Mas para compreendê-lo plenamente — e também entender a resistência que muitos cristãos manifestam em relação à festa — é preciso mergulhar em suas raízes históricas e no significado simbólico que carrega.

A Origem Histórica: Muito Antes do Samba
Ao contrário do que muitos pensam, o Carnaval não nasceu no Brasil, nem sequer no período colonial. Sua origem remonta a celebrações pagãs da Antiguidade.
1. As Saturnálias e as festas dionisíacas
Na Roma Antiga, as Saturnálias eram festivais realizados em dezembro em homenagem ao deus Saturno. Durante esses dias, a ordem social era invertida: senhores serviam escravos, as leis morais eram relaxadas e o prazer corporal era amplamente buscado. Algo semelhante ocorria na Grécia, com as festas dedicadas a Dionísio (Baco), deus do vinho e do êxtase.
2. A adaptação medieval
Com a cristianização do Império Romano, a Igreja não conseguiu — nem tentou — erradicar completamente essas tradições. Em vez disso, elas foram ressignificadas. Surgiu então o período da Quaresma: 40 dias de jejum, oração e penitência que antecedem a Páscoa. Naturalmente, os dias imediatamente anteriores à Quaresma tornaram-se um momento de “válvula de escape”. A palavra Carnaval deriva do latim carnem levare, que significa “retirar a carne” — uma referência direta ao jejum quaresmal que proibia o consumo de carne.
Assim, o Carnaval histórico funcionava como uma despedida dos prazeres materiais antes do período de austeridade. Comia-se e bebia-se bem, celebrava-se intensamente, porque depois viria o silêncio quaresmal.
Por Que o Carnaval é Chamado de “Festa da Carne”?
A expressão “festa da carne” não é apenas uma metáfora. Ela carrega um significado teológico preciso dentro da tradição cristã.
1. A carne como símbolo bíblico
Nas Escrituras, especialmente nas cartas de Paulo, a palavra “carne” (sarx, em grego) não se refere apenas ao corpo físico, mas à natureza humana inclinada ao pecado, à autonomia rebelde em relação a Deus. Paulo escreve: “As obras da carne são manifestas: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, inimizades, porfias” (Gálatas 5.19-20).
A “festa da carne”, nesse sentido, é a celebração do viver segundo os próprios desejos, sem freios morais e sem referência a Deus.
2. A inversão de valores
Historicamente, o Carnaval sempre operou por meio da inversão: o pobre vira rei, o tímido vira ousado, o recatado vira exibido. Para a cosmovisão cristã, essa inversão momentânea não é vista como libertadora, mas como uma rendição àquilo que Paulo chama de “concupiscência da carne” — o desejo desordenado que, segundo a teologia cristã, escraviza em vez de libertar.
3. Não é sobre “ódio à alegria”
É fundamental esclarecer: a crítica cristã ao Carnaval não é uma crítica à alegria, à festa ou ao convívio social. O próprio Jesus foi acusado de ser “comilão e beberrão” justamente por participar de festas (Mateus 11.19). A distinção que os cristãos históricos fazem é entre a alegria legítima e a exaltação da libertinagem como fim em si mesma.
O que a Teologia Cristã Diz?
Para compreender por que muitos cristãos não “curtem” o Carnaval, é preciso entender alguns princípios teológicos:
1. Corpo como templo — A ideia de que o corpo não é propriedade privada, mas “templo do Espírito Santo” (1 Coríntios 6.19), leva o cristão a uma postura de cuidado e temperança.
2. Testemunho público — O cristão é chamado a ser “sal da terra e luz do mundo”. Participar de algo que exalta comportamentos que ele considera moralmente problemáticos seria, para muitos, um contraditestemunho.
3. Disciplina espiritual — A Quaresma, originalmente, era um período de preparação para a Páscoa. O Carnavant, portanto, representa o oposto disso: é o esvaziamento do sentido penitencial.
Conclusão: Entre o Cultural e o Doutrinário
O Carnaval não é, em si mesmo, “demoníaco” ou intrinsecamente mau. Trata-se de um fenômeno histórico e cultural complexo, que nasceu de tradições pagãs, foi absorvido e adaptado pelo calendário cristão e hoje se desdobra em múltiplas formas — do bloquinho de rua ao desfile das escolas de samba.
A rejeição cristã ao Carnaval, portanto, não é (ou não deveria ser) mero moralismo ou repressão puritana. Ela emerge de uma visão de mundo na qual o ser humano não foi feito para viver segundo impulsos desordenados, mas para ordenar seus desejos em direção ao que é verdadeiro, nobre e santo.
Como já disse G.K. Chesterton: “O problema dos cristãos não é que eles se oponham à diversão, mas que eles têm uma visão diferente do que é realmente divertido.” Para o cristão, a verdadeira festa não está na carne que passa, mas no banquete eterno que está por vir.
Este artigo buscou apresentar, de forma equilibrada, a origem histórica do Carnaval e as razões teológicas que levam muitos cristãos a não participarem da festa, sem desrespeitar aqueles que a celebram.
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