“Pensavas que eu era teu igual?” (Salmos 50:21). Esta pergunta divina registrada nos Salmos revela uma tendência humana profunda e perigosa: a de criar Deus à nossa imagem e semelhança, projetando sobre Ele nossos pensamentos, valores e limitações. Em nossa busca por relacionamento com o divino, frequentemente caímos na armadilha de imaginar que Deus pensa como nós, age como nós, e valora as coisas como nós. Este artigo explora os riscos dessa projeção humana e a necessidade de humildade ao nos pronunciarmos sobre a natureza e vontade de Deus.

felizohomem-683x1024 O Cuidado ao nos Pronunciarmos sobre Deus: Será que Ele Pensa como Nós?

A Presunção da Similaridade Divina

A Tentação da Projeção Humana

Ao longo da história, diferentes culturas e indivíduos têm moldado suas concepções de divindade segundo seus próprios parâmetros:

1. Deus como Ampliação de Nós Mesmos
Tendemos a atribuir a Deus nossas preferências políticas, nossas visões culturais, nossos gostos estéticos e até nossos preconceitos. Criamos um Deus que apoia nosso time, defende nossa nação acima de outras, e compartilha nossas aversões e simpatias pessoais.

2. Deus como Garantidor de Nossos Desejos
Transformamos o divino em um gênio da lâmpada cósmico, cujo principal propósito seria atender nossos pedidos, validar nossas escolhas e garantir nosso conforto. Esquecemos que, como Criador, Deus pode ter propósitos que transcendem nossa felicidade imediata.

3. Deus Feito à Medida
Selecionamos versículos e doutrinas que se alinham com nossas predisposições, ignorando aspectos do caráter divino que nos desafiam ou incomodam. Criamos um Deus parcial, que reflete apenas as facetas com as quais nos sentimos confortáveis.

O Abismo Entre o Criador e a Criatura

As Escrituras repetidamente enfatizam a transcendência divina:

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos.” (Isaías 55:8-9)

Esta declaração não sugere apenas uma diferença de grau, mas de natureza. A mente divina opera em dimensões que nossa cognição limitada mal consegue vislumbrar. Sua perspectiva abrange a eternidade, enquanto a nossa raramente ultrapassa nossos interesses imediatos.

Os Perigos da Presunção Teológica

Quando nos pronunciamos sobre Deus com excessiva confiança em nossa própria compreensão, vários perigos emergem:

1. O Ídolo Conceptual
Criamos um ídolo mais sofisticado que as estátuas de ouro dos tempos antigos – um ídolo mental, um conceito de Deus confinado aos limites de nossa compreensão. Este deus feito à nossa imagem é mais palatável, mas não é o Deus verdadeiro.

2. A Arrogância Espiritual
Assumir que compreendemos plenamente os propósitos divinos leva a um dogmatismo perigoso. A história mostra que algumas das maiores crueldades religiosas foram cometidas por aqueles mais seguros de estarem fazendo “a vontade de Deus”.

3. A Desilusão da Fé
Quando nosso Deus projetado falha em corresponder à realidade – quando Ele não age como esperávamos, não responde como imaginávamos – nossa fé pode desmoronar. Muitos abandonam não ao Deus verdadeiro, mas ao ídolo mental que criaram.

O Caminho da Humildade Teológica

Como então nos pronunciarmos sobre Deus de maneira apropriada?

1. Postura de Aprendiz Eterno
Reconhecer que nosso conhecimento de Deus é sempre parcial, progressivo e sujeito a correção. Como escreveu Paulo: “Agora vemos como por espelho, obscuramente” (1 Coríntios 13:12).

2. Prioridade da Revelação sobre a Especulação
Buscar conhecer Deus através do que Ele mesmo revelou sobre Si – nas Escrituras, na pessoa de Cristo, na criação – em vez de começar com nossas próprias ideias e tentar encaixar Deus nelas.

3. Espaço para o Mistério
Cultivar conforto com o não-saber, reconhecendo que alguns aspectos da natureza divina permanecerão além de nossa compreensão finita. O mistério não é falha na revelação, mas reconhecimento da grandeza do Revelado.

4. Deus como Sujeito, Não Objeto
Lembrar que Deus não é um objeto passivo de nosso estudo teológico, mas um Sujeito ativo que Se auto-revela. Nossa fala sobre Deus deve ser sempre resposta à Sua fala primordial, não iniciativa autônoma.

Pronunciamentos que Honram a Transcendência Divina

Em nossa linguagem sobre Deus, podemos cultivar:

1. Linguagem Analógica
Reconhecer que quando falamos sobre Deus, usamos linguagem emprestada do mundo criado, incapaz de capturar plenamente a realidade divina. Nossas descrições são “como se”, não definições exaustivas.

2. Modéstia nas Afirmações
Equilibrar convicção com humildade, certeza com abertura. Podemos afirmar “creio que” em vez de “Deus definitivamente pensa que”.

3. Silêncio Reverente
Às vezes, a postura mais adequada diante do divino não é o discurso, mas o silêncio adorador. Como escreveu certo teólogo: “Deus não é o que imaginamos. Deus não é o que pensamos. Deus é o que Ele é.”

Conclusão: Conhecimento que Humilha e Eleva

O verdadeiro conhecimento de Deus não nos enche de orgulho por nossa compreensão teológica, mas nos humilha diante de Sua grandeza inexplicável. Ao mesmo tempo, este conhecimento nos eleva, pois nos revela um Deus que, sendo tão diferente de nós, escolheu Se revelar, Se relacionar, e até Se encarnar para nos resgatar.

Que nossas palavras sobre Deus sejam marcadas por essa tensão saudável: a convicção de que Ele Se revelou suficientemente para ser conhecido, e a humildade de reconhecer que este conhecimento sempre será incompleto nesta vida.

Que possamos nos aproximar do divino não com a arrogância de quem explica um conceito, mas com a reverência de quem encontra uma Pessoa infinitamente maior que todas nossas categorias. E que, ao falarmos dEle, nossas palavras carreguem tanto a confiança daqueles que foram alcançados por Sua graça, quanto a humildade daqueles que sabem que ainda têm muito a aprender.

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