Há uma ironia silenciosa que ronda os bancos dos seminários e faculdades de teologia: quanto mais alguém estuda sobre Deus, mais distante pode sentir-se d’Ele. Não são poucos os casos de estudantes brilhantes que dominam grego, hebraico, história eclesiástica e sistemática, mas confessam, em particular, que a chama da fé arde mais fraca do que antes. Como é possível que o estudo daquilo que deveria aproximar o ser humano do transcendente resulte, muitas vezes, em ceticismo e aridez espiritual?

Este artigo não é um ataque ao estudo teológico, mas um alerta sobre os riscos de uma teologia que se limita à dimensão intelectual — a idolatria da letra que, sem perceber, substitui o mistério pela informação, a experiência pelo conceito, e a fé pelo conhecimento sobre a fé.

juiznaigreja-683x1024 Quando o Estudo da Teologia Enfraquece a Fé: O Perigo de Ficar Preso à Letra

1. A Teologia sem Espiritualidade se Torna Ideologia

A teologia, em sua essência, sempre foi compreendida como fé em busca de compreensão (fides quaerens intellectum), na clássica definição de Anselmo de Cantuária. Isso significa que o ponto de partida não é a dúvida metódica, mas a fé viva. Quando o estudo da teologia é dissociado da vida espiritual — da oração, da contemplação, do silêncio, do serviço ao próximo — ele perde seu objeto próprio. Deus deixa de ser uma Pessoa com quem se dialoga e se reduz a um problema a ser resolvido ou um texto a ser dissecado.

O estudante que apenas lê sobre Deus, mas não fala com Deus, aos poucos constrói um deus conceitual. E conceitos, ao contrário de pessoas, não demandam entrega, confiança ou risco. Consequência: o coração permanece intocado.

2. A Dissecação do Mistério e a Perda do Assombro

O conhecimento teológico, quando bem utilizado, não elimina o mistério: ele o aprofunda. Grandes teólogos como Agostinho, Tomás de Aquino e Karl Barth jamais pretenderam esgotar Deus em fórmulas. Pelo contrário, quanto mais conheciam, mais se prostravam diante do incognoscível. No entanto, para o estudante moderno — herdeiro de uma mentalidade cartesiana e científica —, estudar teologia pode equivaler a “dominar” o conteúdo, como quem domina anatomia ou gramática.

Perde-se o assombro. A Bíblia, antes percebida como voz viva, torna-se um conjunto de documentos sujeitos à crítica de fontes, formas e redações. A liturgia, antes encontro, vira estudo de ritualística. A pregação, outrora proclamação, reduz-se a análise retórica. Nada disso é inválido; o problema é fazê-lo sem nunca erguer os olhos do texto.

3. O “Espírito da Letra” e o Esvaziamento do Sagrado

O apóstolo Paulo já alertava: “a letra mata, mas o espírito vivifica” (2 Coríntios 3.6). O texto não foi escrito contra o estudo, mas contra a absolutização do texto sem a mediação do Espírito. Um estudante que lê as Escrituras apenas como arqueólogo, e não como discípulo, fatalmente se tornará um cético funcional.

O ceticismo do estudioso de teologia não é, via de regra, o ateísmo militante, mas uma espécie de indiferença cordial. Ele conhece todas as teorias sobre a ressurreição, mas não celebra a Páscoa. Discute a ética do Sermão do Monte, mas não perdoa. Defende a opção preferencial pelos pobres, mas não convive com eles. Sua fé tornou-se um conjunto de proposições mentalmente assentidas, mas não encarnadas.

4. O Perigo da Soberba Intelectual

Há um risco espiritual concreto no acúmulo de conhecimento teológico: a soberba. Saber mais do que os outros sobre a história do cânon ou as controvérsias cristológicas pode gerar uma sensação de superioridade sutil, quase imperceptível. O estudante começa a olhar com piedade — ou desprezo — para a fé simples dos que não estudaram.

Essa postura é letal para a espiritualidade. O Reino, alertou Jesus, pertence aos que se fazem crianças. A fé que move montanhas não está na espessura da biblioteca, mas na simplicidade do coração que confia. Quando a teologia não é feita de joelhos — literal ou metaforicamente — ela endurece.

5. Possíveis Caminhos: Reintegrando Coração e Mente

Se o diagnóstico é sombrio, o prognóstico não precisa sê-lo. É possível estudar teologia com profundidade acadêmica e manter viva a chama da fé. Para isso, algumas posturas são fundamentais:

a) O estudo como oração. Alternar a leitura analítica com a leitura orante (lectio divina) impede que o texto sagrado se torne mero objeto. O estudante aprende a perguntar não apenas “o que isto significa?”, mas “o que isto me diz hoje?”.

b) A humildade epistemológica. Reconhecer que todo conhecimento teológico é analógico, imperfeito, provisório. Como disse Agostinho: “Se compreendeste, não é Deus”.

c) A prática litúrgica e comunitária. A teologia não se faz no isolamento, mas na comunidade de fé. O culto, a eucaristia, o convívio com os irmãos e o serviço aos pobres são lugares teológicos tão legítimos quanto a biblioteca.

d) A direção espiritual. O estudante de teologia precisa de alguém que cuide de sua alma, não apenas de sua produção acadêmica. Um mentor que ore com ele, que o confronte com amor e o ajude a integrar saber e vida.

Conclusão

Estudar teologia é um dom e uma responsabilidade. Mas é também um campo de batalha espiritual. O conhecimento pode edificar ou destruir, aproximar ou afastar. A diferença não está no volume de livros lidos, mas na postura do coração.

Se a letra sem o espírito mata, o espírito sem a letra pode vaguear sem direção. O equilíbrio não é fácil, mas é possível. Uma teologia que não leva à adoração é, no fim das contas, uma teologia fracassada. Que todo aquele que se dedica ao estudo das coisas sagradas não se esqueça: o véu do templo não foi rasgado para que pudéssemos ver melhor o texto, mas para que pudéssemos entrar na presença.

Que a sabedoria teológica não nos torne juízes da fé alheia, mas servidores humildes do mistério que, quanto mais conhecido, mais permanece inefável.

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